Um novo tipo de biodiesel composto por álcool anidro (etílico), obtido a
partir da cana-de-açúcar e óleos vegetais, foi desenvolvido por pesquisadores
do LADETL - Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas do
Departamento de Química da FFCL - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
da USP - Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto.
A mistura, além de ser menos poluente e totalmente reciclável, poderá
representar uma grande economia nas importações de combustível e expandir a
produção agrícola e industrial do país.
Segundo o professor da FFCL Miguel Dabdoub Paz, um dos responsáveis
pelo projeto, o biodiesel na Europa é obtido através da mistura de
óleos vegetais com metanol (álcool metílico),
derivado do petróleo que não prejudica o desempenho da mistura, mas é
extraído de fonte não renovável.
'O clima tropical do Brasil favorece o plantio em grande escala da cana,
matéria-prima renovável', relata. 'O país também domina a tecnologia
industrial de obtenção do álcool, o que favorecerá as exportações'
O biodiesel se forma através da reação do álcool com os óleos vegetais, por
meio de um catalisador. O professor Paz explica que na Europa é utilizado o
hidróxido de sódio (soda cáustica), que leva seis horas para completar a
reação, sem separar o biodiesel da glicerina que se forma como subproduto,
prejudicando o refino.
Os pesquisadores da LADETL, usando duas substâncias catalisadoras,
conseguiram obter o combustível em apenas meia hora. 'Com o co-catalisador é
possível separar a glicerina, que tem grande utilidade na produção de
cosméticos, remédios e explosivos', afirma.
Uma parceria da USP com a Petrobrás pesquisará o uso
da glicerina na produção de gases para a indústria petroquímica e a produção
de células de combustível para carros movidos a hidrogênio.
Agricultura
Os óleos vegetais usados na produção do biodiesel podem ser obtidos da soja,
algodão, girassol, milho e canola. Por intermédio de um convênio com a
Universidade Federal de Rondônia, o LADETL tem testado o uso do óleo de
babaçu.
Outra parceria, com a Universidade Federal de Diamantina, está avaliando o
potencial do óleo de pequi, cujo fruto rende entre 50% a 55% de óleo, contra
14% a 18% da soja. 'O pequi é obtido no Vale do Jequitinhonha através de
extrativismo', diz Miguel Paz. 'A idéia é introduzir seu cultivo, fixando a
população da região através da atividade agrícola'.
O LADETL pesquisa o uso de biodiesel desde 2000, realizando testes em
tratores da UNESP de Jaboticabal, da Secretaria da Agricultura e em picapes
de voluntários da própria USP. O Laboratório integra o Pro-Biodiesel,
grupo coordenado pela Secretaria de Tecnologia Empresarial do Ministério da
Ciência e Tecnologia, com a participação dos ministérios das Minas e Energia,
Meio Ambiente, Agricultura, universidades, instituições de pesquisa,
montadoras de automóveis e fábricas de autopeças.
O objetivo do programa, a partir das normas técnicas da ANP - Agência
Nacional de Petróleo, é conseguir a adição de 5% de biodiesel em toda a frota
de veículos a diesel do país em 2005. De acordo com o professor, a medida
reduzirá em 33% as importações brasileiras de diesel refinado, representando
uma economia anual de cerca de R$ 1,2 bilhões por ano. O uso do biodiesel não
exige grandes adaptações nos veículos existentes, e proporciona uma partida
mais eficaz.
Meio Ambiente
Miguel Paz relata que os motores movidos a diesel comum já têm menos consumo
que a gasolina, mas o biodiesel traz uma grande redução do impacto ambiental,
com a queda da emissão de gases poluentes. 'O uso total de biodiesel reduz em
68% a emissão de material particulado, ou seja, fuligem e fumaça preta',
relata. 'A mistura de 5% ao diesel comum reduz as emissões em 13,8%, além de
eliminar a cor preta das emissões'.
O professor aponta que os veículos a diesel representam de 6% a 8% da
quilometragem rodada no país, mas são responsáveis por 20 a 25% da poluição.
'Com os benefícios ecológicos do biodiesel, seria possível no futuro
viabilizar seu uso em carros de passeio no Brasil, aumentando a economia de
combustível', afirma.
Fonte: Ambiente Brasil - 21/02/03