08/03/2003 - 08h10
Álcool de cana permite diesel renovável
REINALDO JOSÉ LOPES
O primeiro biodiesel totalmente renovável do mundo foi
criado por pesquisadores da USP, que conseguiram incorporar à produção do
combustível o álcool de cana. De quebra, a equipe conseguiu reduzir o tempo
necessário para produzir o biodiesel de seis horas para 30 minutos, um avanço
que pode ser crucial para que ele se torne viável economicamente.
Biodiesel é o nome dado ao óleo combustível produzido a
partir de óleos vegetais, e não derivado de petróleo.
O combustível ainda é 10% mais caro que seu similar
produzido usando metanol, mas as vantagens ambientais e mesmo econômicas
compensam de longe a diferença, diz o coordenador da pesquisa, Miguel Dabdoub,
40, do Departamento de Química da USP de Ribeirão Preto.
Uma delas é só usar fontes vegetais e, portanto,
renováveis. Ao contrário do metanol, normalmente obtido do petróleo, o álcool
de cana (ou etanol) pode ser reposto a cada safra, assim como os óleos vegetais
que são o componente principal da reação.
Dessa forma, o dióxido de carbono (CO2) gerado
pela queima do biodiesel pode ser reabsorvido pelas plantas que são
matéria-prima para os óleos vegetais, evitando assim os efeitos do gás sobre o
clima do planeta (ele é considerado o principal responsável pelo aquecimento
global).
Vegetais disponíveis para o processo é o que não falta, diz Dabdoub: "Podemos usar óleo de soja,
girassol, milho, algodão, canola ou de qualquer oleaginosa", enumera o
pesquisador.
Testes têm mostrado que óleos importantes para a economia
de algumas regiões do país, como o de babaçu (uma palmeira do Norte e
Nordeste), dendê (tipicamente nordestino) ou pequi (árvore
comum no Brasil Central) também funcionam, sem necessidade de adaptar o
motor.
Tanto o metanol quanto o etanol, que entram numa proporção
de 20% a 30% na reação que produz o biodiesel, são formas de álcool. Segundo
Dabdoub, ninguém havia conseguido usar simples álcool de cana na reação:
"Uma das dificuldades que existem hoje é que a reação não se processa com
eficiência".
"A taxa de conversão [da mistura óleo e etanol em
biodiesel] é muito baixa", diz o pesquisador da USP. "Mas o item mais
importante é que o produto final forma soluções entre o biodiesel e a
glicerina, que é o outro resultante da reação, e fica muito difícil
separá-los", afirma.
O pulo-do-gato descoberto por Dabdoub e
seus colaboradores foi usar catalisadores
(substâncias que não são alteradas nas reações químicas, mas as aceleram e
melhoram) capazes de dar entre 98% e 100% de eficiência à reação.
Na verdade, o novo método usa um catalisador e um
co-catalisador. Dabdoub prefere não revelar quais são para proteger os direitos
intelectuais sobre o processo. "Mas o co-catalisador é à base de argila e
extremamente barato", afirma o pesquisador.
Na reação, o etanol e o óleo vegetal reagem formando o
biodiesel e a glicerina. Com os novos catalisadores, os dois produtos não saem
mais misturados, e é possível aproveitar ambos de forma muito mais prática.
Poluição reduzida
O laboratório de Dabdoub já está equipado para produzir o
biodiesel em escala piloto (mil litros por dia), mas ele quer mais. Em parceria
com outras universidades brasileiras e com o MCT (Ministério da Ciência e
Tecnologia), já está em andamento o projeto de misturar 5% de biodiesel ao
diesel usado em veículos no país.
"Mesmo essa proporção pequena reduziria em 17% a
emissão de enxofre [causador da chuva ácida] e em 13,5% a de material
particulado em forma de fuligem [que causa problemas respiratórios]",
estima o pesquisador.
Dabdoub afirma que, gradualmente, seria possível aumentar a
produção do biodiesel para que ele fosse usado integralmente, sem a mistura com
o diesel tradicional. "Para isso, porém, teríamos de aumentar a área
plantada para produzir os óleos vegetais."
Fonte: Folha de S. Paulo - Caderno Ciência